Seus livros eram seu ponto de equilíbrio, seu porto seguro. Para uma garotinha Ana enfrentava muitas dificuldades, fossem elas próprias de sua idade ou não. Seu pai, um homem muito amoroso, estava agindo de modo estranho ultimamente, não somente com ela, mas com tudo em geral. Na escola, as outras meninas não gostavam dela e viviam fazendo brincadeiras de mau gosto. Sua mãe havia sumido. Sequestro e assassinato foram as palavras que ela ouvira um homem com um uniforme engraçado com um carro que tinha luzes brilhantes falar para seu pai na sala de sua casa dias atrás, e apesar de não saber o significado delas já havia as odiado de primeira pela reação do seu pai após ouvir essas duas palavras.
Certamente ele era muito curiosa a ponto de querer saber qual era o misterioso significado, mas também era receosa e não as perguntava ao seu pai com medo de vê-lo chorar novamente. Assim, dia após dia e noite após noite ela lia suas histórias na esperança que, de alguma forma, sua mãe voltasse e lhe desse um beijo dizendo que seu pai jamais choraria novamente, que suas amigas da escola não fariam mais mal a ela, e que ela jamais sumiria novamente.
Mas claro, isso nunca aconteceria.
Durante a madrugada, Miguel, que acordara após um pesadelo, estava deitado em sua cama enquanto as lágrimas corriam por seu rosto. Era difícil dizer o que estava o machucando mais. Se o assassinato de sua esposa ou o temor que sentia por sua filha, uma garota tímida, sendo criada apenas pelo pai. Toda a investigação da polícia em busca do assassino estava consumindo-o mais ainda. A sensação era de uma ferida constantemente aberta quando estava começando a cicatrizar. Levantou-se da cama e foi até o quarto da menina. A luz estava apagada e o abajur aceso. Ao pé da cama um livro titulado “Cinderela” e aos braços de Ana, um urso sendo exprimido por um abraço forte.
Ali estava, em pé, olhando agora não para sua filha, mas para uma garotinha. Uma garotinha com sonhos, propósitos e fantasias. Uma garotinha com toda sua infância pela frente. Uma garotinha que perdera e mãe e nem ao menos se dava conta totalmente disso. Uma garotinha com seus medos e temores. Sua filha. Sua filha, fantasiando com um conto de fadas, abraçada com um urso, claramente e involuntariamente suplicando por proteção.
Fogo e Água se misturaram em uma confusão de sentimentos, lágrimas de tristeza e alegria insistiam em jamais deixar seu rosto seco. Por mais que secasse e apagasse o trajeto que elas deixavam, após um tempo novamente ali estavam. A fonte do problema não era o físico. A fonte era a alma, e para a alma não há remédio. Há tempo, apenas tempo. Ajoelhou-se em frente à cama da menina, pegou o livro no colo, abriu-o na página demarcada, onde Cinderela conversava com sua fada madrinha. Fechou o livro, segurou uma das mãozinhas de Ana, e sentado, novamente com lágrimas nos olhos, dormiu.
Aquele ali foi o inicio de um tempo novo. Um tempo novo selando o passado. Passado que jamais seria apagado, porem, pra sempre lembrado como superação. Um tempo que ensinou. Para Miguel, um professor que teve a missão de mostrar que mesmo as situações mais difíceis podem ser superadas. Para Ana, um professor com a lição de ensinar que os contos de fada não são reais, que a vida é dura e amarga, mas que pessoas e simples momentos podem tornar tudo um pouco mais doce, dizendo que mesmo sem a existência de conto de fadas, é possível ter um final feliz.
Davi Lima
Na boa, não curti o final do texto, mas é o que tá tendo pra hoje.
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