-Ah, oi?
-faz tempo que não te vejo.
-É.
-E como você está?
-Estou muito bem, obrigada.
-Puxa, que bom. Desculpe não te ligar, perdi seu número.
-Desculpe, mas não te conheço.
-Como assim não me conhece?
-Não, não conheço senhor.
-Você não mudou nada seu senso de humor.
-Que senso de humor?
-As suas brincadeiras.
-Mas não estou brincando.
-Claro que está. Não me conhece, como se isso fosse possível. – e riu.
-Deve estar havendo algum engano.
-Não há engano nenhum, eu sei que faz tempo, mas não é tanto tempo assim. – continuou rindo
-Senhor, eu não estou brincando, você deve estar me confundindo com alguém, mas veja – olhou seu relógio - tenho que pegar meu trem.
-Pare logo de graça – os vestígios de sorriso ainda estavam em seu rosto – Quer que eu me desculpe pelo longo tempo sem nos falarmos?
-Nunca nos falamos antes.
-Já chega, eu já entendi. Desculpa-me, mas eu já disse, perdi seu telefone. – seu olhar era sincero.
-Escute senhor, como também já disse você realmente está me confundindo com alguém.
-Ora pois, pare de tentar me enganar, não sou tão velho assim.
-Ou talvez esteja com problemas de memória, eu realmente nunca vi o senhor antes.
-Prove.
-Provar o que?
-Que não me conhece.
-Não preciso provar nada pra você.
-Aí está, você me conhece – e sorriu, aliviando a preocupação que estava em seu rosto. – Mas me diga, como vai o menino?
-Que menino?
-Seu filho.
-Desculpe senhor, não tenho filhos. – por um segundo apareceram coisas semelhantes a lagrimas em seus olhos - O senhor está pensando que sou outra pessoa. – Já estava impaciente – Não posso perder meu trem, tenho negócios a resolver. Adeus e boa sorte - partiu.
-Espere – e segurou em seus braços
-Senhor! – virou-se assustada – Vou chamar a polícia se não me largar agora.
-Pare de graça! Já chega. Já pregou uma boa peça em um velho, tudo bem. Coloque logo um fim nisso. Estou com saudades de você, e bem, dos seus filhos também. – Continuava a segurá-la.
-Deve ser mesmo um velho safado e nojento – Seu olhar expressava medo e repulsa – Me largue agora ou vou gritar!
-Já disse para você parar de graça Alicia.
-Me chamou do que?
-Alicia, do que mais seria?
-Como sabe meu nome?
-Como assim como sei seu nome?
-Deve estar havendo um grande engano e uma grande coincidência. – Estava visivelmente assustada. – Agora me largue, pois tenho que ir embora. Por favor.
-Por que tanta pressa? – Largou-a – Não há engano algum aqui. Você não mudou quase nada.
O mesmo cabelo, o mesmo cheiro, as mesmas cores na roupa, o mesmo jeito de andar – e rindo disse – Até o mesmo jeito de ficar assustada.
-Boa sorte – velho louco, acrescentou em pensamento.
-Eu queria mesmo ter te ligado, não ter esperado tanto tempo. Mas não pude. – seus olhos encheram-se de lágrimas.
Alicia continuava a andar para sua plataforma.
-Mande lembranças à Cristina.
Aquela frase a fez parar. Virou-se lentamente.
-Quem é você?
-Você não sabe mesmo quem sou eu?
-Ainda tem dúvidas?
-Creio que não esteja brincando.
-Ainda não me respondeu.
-Venha, vamos tomar um café comigo – estava triste.
-Não tenho tempo. Quem é você?
-Te respondo se vier comigo. – Forçou um meio sorriso.
-Não posso.
-E por que não?
-Não o conheço.
-Mas eu a conheço.
-Isso não quer dizer nada.
-Isso quer dizer muita coisa e eu quero saber tudo o que há pra ser dito.
A moça com sua maleta de trabalho e seu cabelo preso em um coque estava em duvida.
-Ora vamos, um café com um velho não vai te matar.
-O café não.
-Então, problema resolvido – e sorriu.
-Meu problema é o velho.
-Acredite, não faria mais nenhum mal a você. – disse imerso em seus pensamentos.
-Mais?
-O que disse?
-Você disse que não faria mais nenhum mal a mim. – disse desconfiada.
-Foi só modo de falar.
-Mas não precisava ter colocado um mais na frase.
-Como posso tê-la feito algum mal se, de acordo com você, nunca nos vimos?
-Mas você sabe meu nome.
-E o nome da sua mãe também – sorriu novamente. – O tempo que perdemos nessa discussão já teria sido suficiente pra umas duas xícaras de café.
Alicia olhou o relógio novamente.
-Certo, vamos.
Andaram em silêncio até a cafeteria. Sentara-me na mesa e pediram os cafés.
Alicia estava indo abrir sua maleta para pegar o dinheiro.
-Deixe que eu pago. – Sorriu e entregou uma nota de 50 para a garçonete. – Esse deve ser um trabalho muito desgastante.
-O senhor dizia?
-Garçom, garçonete. Trabalhar duro e ganhar pouco. Deve ser uma vida difícil. Fico imaginando a vida de quem esse trabalho é a única opção.
-Sim, deve ser – sua fala soou cansada, enquanto refletia sobre o que o velho dissera.
-E como vão as coisas com você?
-Espera mesmo que eu diga?
-Mas é claro.
-Não o conheço, já disse.
-Mas aceitou vir tomar café comigo, isso já é um começo. Bom, recomeço.
-O senhor pode estar mentindo.
-Por que eu mentiria?
-Há muitas pessoas más no mundo.
-Tenho que concordar, mas não sou uma delas.
-O que me faz acreditar nisso?
-A pessoa que eu sou.
-E quem você é? – bebericou seu café.
-Sou seu pai.
-Quem? O senhor é louco! –levantou-se bruscamente, claramente irritada.
-Sente-se, por favor, o que eu disse de mais?
-Você não tem esse direito, não tem esse direito! – As lágrimas estavam nos seus olhos.
-Por que está tão eufórica dessa forma?
-Vá para o inferno você e seu café, velho estúpido.
-Não está acreditando em mim?
-Meu pai está morto. Morreu quando eu tinha 12! Agora me deixe em paz! – Disse enquanto secava o rastro molhado deixado em seu rosto.
-Impossível Alicia, sou mesmo o seu pai – ele também estava assustado – sente-se por favor, está chamando a atenção das pessoas.
-Ora, fodam-se as pessoas, foda-se também você. Não tem o direito de fazer isso comigo. O que está querendo?
-Espere um momento – abriu sua carteira e retirou seu RG, juntamente com uma foto 3x4 de Alicia quando esta era apenas uma menininha – acredite em mim, não estou mentindo pra você.
A moça tomou o documento e a foto da mão enrugada daquele homem, olho-os, no seu rosto uma expressão confusa, de medo e incerteza. Sentou-se, tremendo, chorando ainda.
-Não faz nenhum sentido.
-Muitas coisas não fazem sentido.
-Não, você não entende. Não pode ser verdade. – Ainda chorava.
-Está diante dos seus olhos, Alicia.
-Eu sei, mas não faz. Não pode fazer.
-Por que disse que eu estava morto?
-Minha mãe me disse isso, desde que sou pequena.
-A Cristina disse isso?
-Sim, disse que você morreu em um acidente de carro, que morava em outra cidade e teve um acidente.
-Entendo.
-Disse que o enterro já teria acontecido quando ela soube da suposta notícia, e que foi melhor.
-Disse que foi melhor?
-Sim.
-Melhor de que forma?
-Acho que melhor pra mim.
-Por que acha isso?
-Por tudo que ela falava de você.
-O que ela falava?
-Que você não era um homem bom, foi melhor ter partido.
-Entendo – estava visivelmente triste.
-O seu nome é mesmo Pedro?
-Sim – sorriu um sorriso mal disfarçado – ao menos nisso ela foi sincera com você.
-É.
-Você disse que ela falava.
-Disse, por quê?
-Está no passado.
-Creio que sim
-Não fala mais?
-Não.
-Por quê?
-Não dá.
-Não dá?
-Morreu – outra lágrima escorreu dos seus olhos já inchados.
-Morreu? – espantou-se – Quando?
-Ontem. – as lágrimas fluíam sem nenhum impedimento.
-Meu Deus! O que aconteceu?
-Ataque cardíaco. Não quero falar sobre isso.
-Sinto muito, sinto muito mesmo. – não sabia o que falar
-Veja como as coisas são, como a vida é ingrata. Até ontem eu tinha mãe e não tinha pai. Hoje eu tenho pai e não tenho mais mãe.
-Alicia, eu não sei o que te dizer.
-Não diga nada, não tem esse direito.
-Como? – espantou-se.
-Não pode simplesmente aparecer em minha vida repentinamente e querer opinar sobre nada. Principalmente dizer que sente muito. Pro inferno com tanto sentimentalismo. Onde estava quando precisei de você? Onde estava quando ainda dava pra se fazer alguma coisa?
-Alicia, não pense dessa forma.
-Onde estava em toda a minha infância? – interrompeu-o ignorando seu comentário – Não tem o direito de me abandonar aos sete, me deixar crescer sem pai, morrer aos doze e ressurgir aos 21. Vá pro inferno com seu sentimento! – Disse enquanto chorava.
-Por favor, não me veja dessa forma. Não acredite nesse mostro que criou em sua cabeça. Nunca fui um bom marido pra sua mãe, fui fraco e a traí. Machuquei você enquanto estava bêbado. Achei melhor viver sozinho, e fui obrigado a não entrar em contato com você. Nunca fui perfeito, mas nunca, nunca deixei de te amar.
-Não consigo acreditar em suas palavras.
-Se acalme, me dê mais uma chance.
A moça sentou-se novamente e Pedro considerou isso como um sim. Passou a mão em suas bochechas, secando as lágrimas que ali se depositaram.
-Sei que você está passando por um momento difícil, mas veja, não estou aqui para tornar nada mais difícil do que realmente é para você. Quero te ajudar. Recuperar o tempo que perdi contigo. Há algo que eu possa fazer?
-Não tenho nada em mente. – na verdade, por dentro, suplicava por ajuda.
-Cuidar do seu filho, talvez.
-Não tenho filho.
-Fiquei sabendo que teve a uns anos atrás.
-Já partiu.
-Partiu, para onde?
-Para um lugar melhor – Sua boca tremia e sua voz falhava. Seus olhos? Encharcados novamente. – Nasceu com deficiência. Não agüentou.
-Meu Deus!
-Deus? Que Deus? – soava em tom de ironia.
-Eu realmente sinto muito – As lágrimas também o pegaram, como uma doença contagiosa. Segurou as mãos de Alicia e disse – Me perdoe, por tudo. Eu sinto muito.
Alicia só conseguia chorar.
-Não havia tratamento médico para ele?
-Havia.
-Não funcionou?
-Não havia dinheiro.
-Mas você não trabalha?
-Trabalho.
-Não foi suficiente?
-Não, era muito caro.
-Mas em que você trabalha?
-Trabalho com pessoas. –olhou-o nos olhos, tentando o censurar de qualquer pergunta futura.
-É advogada ou psicóloga?
Não funcionou
-Não.
-Então o que faz com as pessoas?
-Sexo. – Abaixou a cabeça, chorando. Chorava por tudo. Por sua mãe, seu filho, sua vida. Aquela piada que recebera o apelido de vida.
-Ah! – a expressão do senhor era de surpresa, dor, tristeza, dó e compaixão. Não conseguia dizer mais nada.
Por um tempo permaneceram em silêncio.
-O que é agora? Acha ruim ter uma filha puta que você abandonou quando criança?
-Não diga isso!
-Por que não? Tem medo dessa palavra? Sou puta sim, graças a você também!
-Não diga tantas besteiras, não se refira a você dessa forma minha princesa. – dizia enquanto passa as mãos em suas bochechas.
-Princesa? –riu ironicamente – Ah sim! Uma princesa, vivendo no luxo de uma mansão, com uma vida feliz, ao invés de uma vagabunda abandonada fazendo sexo por 60 reais. Sim, uma princesa!
O velho chorava com cada palavra da filha, não pelo que ela era, mas pela forma amarga que ela enxergava a vida. Chorava por saber que ele era o grande responsável por aquilo tudo.
-Não diga mais nada minha princesa – dizia entre lagrimas e soluços – mais nada. – levantou-se e a abraçou.
Durante o abraço ambos tiveram suas almas sangrando, derramando seu sangue pelos olhos. Ambos transmitiram ali sentimentos de dores, guardados a muito tempo no interior de suas almas. Fizeram de um simples café um rio de lágrimas.
-Me deixe seu telefone, endereço. Algo que eu possa me comunicar com você. – disse o velho – Não quero mais perder-te.
E assim o fez, e a moça partiu. Partiu novamente para o campo de batalha, mesmo sabendo que seu corpo não agüentaria por muito tempo.
Após duas semanas, uma ligação. O velho senhor da estação de trem, seu pai, havia ido morar com Deus, após ser consumido pelo câncer. Um velho rico, que reconstruiu sua vida em uma cidade grande após o divórcio com sua esposa. Um velho estranho que deixou toda a sua herança para sua filha perdida. Um velho pai que tentou concertar os erros do passado, deixando juntamente com a herança um bilhete com os principais dizeres: “Minha princesa, reconstrua sua vida. Perdoe-me pelos meus erros. Nunca desista de ser feliz. Eu te amo, por mais que seja difícil de acreditar é a verdade. Com amor, Seu pai, o velho estúpido da estação de trem.”
Davi Lima