sábado, 21 de janeiro de 2012

O Velho da Estação

-Nossa! Oi!
-Ah, oi?
-faz tempo que não te vejo.
-É.
-E como você está?
-Estou muito bem, obrigada.
-Puxa, que bom. Desculpe não te ligar, perdi seu número.
-Desculpe, mas não te conheço.
-Como assim não me conhece?
-Não, não conheço senhor.
-Você não mudou nada seu senso de humor.
-Que senso de humor?
-As suas brincadeiras.
-Mas não estou brincando.
-Claro que está. Não me conhece, como se isso fosse possível. – e riu.
-Deve estar havendo algum engano.
-Não há engano nenhum, eu sei que faz tempo, mas não é tanto tempo assim. – continuou rindo
-Senhor, eu não estou brincando, você deve estar me confundindo com alguém, mas veja – olhou seu relógio - tenho que pegar meu trem.
-Pare logo de graça – os vestígios de sorriso ainda estavam em seu rosto – Quer que eu me desculpe pelo longo tempo sem nos falarmos?
-Nunca nos falamos antes.
-Já chega, eu já entendi. Desculpa-me, mas eu já disse, perdi seu telefone. – seu olhar era sincero.
-Escute senhor, como também já disse você realmente está me confundindo com alguém.
-Ora pois, pare de tentar me enganar, não sou tão velho assim.
-Ou talvez esteja com problemas de memória, eu realmente nunca vi o senhor antes.
-Prove.
-Provar o que?
-Que não me conhece.
-Não preciso provar nada pra você.
-Aí está, você me conhece – e sorriu, aliviando a preocupação que estava em seu rosto. – Mas me diga, como vai o menino?
-Que menino?
-Seu filho.
-Desculpe senhor, não tenho filhos. – por um segundo apareceram coisas semelhantes a lagrimas em seus olhos - O senhor está pensando que sou outra pessoa. – Já estava impaciente – Não posso perder meu trem, tenho negócios a resolver. Adeus e boa sorte - partiu.
-Espere – e segurou em seus braços
-Senhor! – virou-se assustada – Vou chamar a polícia se não me largar agora.
-Pare de graça! Já chega. Já pregou uma boa peça em um velho, tudo bem. Coloque logo um fim nisso. Estou com saudades de você, e bem, dos seus filhos também. – Continuava a segurá-la.
-Deve ser mesmo um velho safado e nojento – Seu olhar expressava medo e repulsa – Me largue agora ou vou gritar!
-Já disse para você parar de graça Alicia.
-Me chamou do que?
-Alicia, do que mais seria?
-Como sabe meu nome?
-Como assim como sei seu nome?
-Deve estar havendo um grande engano e uma grande coincidência. – Estava visivelmente assustada. – Agora me largue, pois tenho que ir embora. Por favor.
-Por que tanta pressa? – Largou-a – Não há engano algum aqui. Você não mudou quase nada.
O mesmo cabelo, o mesmo cheiro, as mesmas cores na roupa, o mesmo jeito de andar – e rindo disse – Até o mesmo jeito de ficar assustada.
-Boa sorte – velho louco, acrescentou em pensamento.
-Eu queria mesmo ter te ligado, não ter esperado tanto tempo. Mas não pude. – seus olhos encheram-se de lágrimas.
Alicia continuava a andar para sua plataforma.
-Mande lembranças à Cristina.
Aquela frase a fez parar. Virou-se lentamente.
-Quem é você?
-Você não sabe mesmo quem sou eu?
-Ainda tem dúvidas?
-Creio que não esteja brincando.
-Ainda não me respondeu.
-Venha, vamos tomar um café comigo – estava triste.
-Não tenho tempo. Quem é você?
-Te respondo se vier comigo. – Forçou um meio sorriso.
-Não posso.
-E por que não?
-Não o conheço.
-Mas eu a conheço.
-Isso não quer dizer nada.
-Isso quer dizer muita coisa e eu quero saber tudo o que há pra ser dito.
A moça com sua maleta de trabalho e seu cabelo preso em um coque estava em duvida.
-Ora vamos, um café com um velho não vai te matar.
-O café não.
-Então, problema resolvido – e sorriu.
-Meu problema é o velho.
-Acredite, não faria mais nenhum mal a você. – disse imerso em seus pensamentos.
-Mais?
-O que disse?
-Você disse que não faria mais nenhum mal a mim. – disse desconfiada.
-Foi só modo de falar.
-Mas não precisava ter colocado um mais na frase.
-Como posso tê-la feito algum mal se, de acordo com você, nunca nos vimos?
-Mas você sabe meu nome.
-E o nome da sua mãe também – sorriu novamente. – O tempo que perdemos nessa discussão já teria sido suficiente pra umas duas xícaras de café.
Alicia olhou o relógio novamente.
-Certo, vamos.
Andaram em silêncio até a cafeteria. Sentara-me na mesa e pediram os cafés.
Alicia estava indo abrir sua maleta para pegar o dinheiro.
-Deixe que eu pago. – Sorriu e entregou uma nota de 50 para a garçonete. – Esse deve ser um trabalho muito desgastante.
-O senhor dizia?
-Garçom, garçonete. Trabalhar duro e ganhar pouco. Deve ser uma vida difícil. Fico imaginando a vida de quem esse trabalho é a única opção.
-Sim, deve ser – sua fala soou cansada, enquanto refletia sobre o que o velho dissera.
-E como vão as coisas com você?
-Espera mesmo que eu diga?
-Mas é claro.
-Não o conheço, já disse.
-Mas aceitou vir tomar café comigo, isso já é um começo. Bom, recomeço.
-O senhor pode estar mentindo.
-Por que eu mentiria?
-Há muitas pessoas más no mundo.
-Tenho que concordar, mas não sou uma delas.
-O que me faz acreditar nisso?
-A pessoa que eu sou.
-E quem você é? – bebericou seu café.
-Sou seu pai.
-Quem? O senhor é louco! –levantou-se bruscamente, claramente irritada.
-Sente-se, por favor, o que eu disse de mais?
-Você não tem esse direito, não tem esse direito! – As lágrimas estavam nos seus olhos.
-Por que está tão eufórica dessa forma?
-Vá para o inferno você e seu café, velho estúpido.
-Não está acreditando em mim?
-Meu pai está morto. Morreu quando eu tinha 12! Agora me deixe em paz! – Disse enquanto secava o rastro molhado deixado em seu rosto.
-Impossível Alicia, sou mesmo o seu pai – ele também estava assustado – sente-se por favor, está chamando a atenção das pessoas.
-Ora, fodam-se as pessoas, foda-se também você. Não tem o direito de fazer isso comigo. O que está querendo?
-Espere um momento – abriu sua carteira e retirou seu RG, juntamente com uma foto 3x4 de Alicia quando esta era apenas uma menininha – acredite em mim, não estou mentindo pra você.
A moça tomou o documento e a foto da mão enrugada daquele homem, olho-os, no seu rosto uma expressão confusa, de medo e incerteza. Sentou-se, tremendo, chorando ainda.
-Não faz nenhum sentido. 
-Muitas coisas não fazem sentido.
-Não, você não entende. Não pode ser verdade. – Ainda chorava.
-Está diante dos seus olhos, Alicia.
-Eu sei, mas não faz. Não pode fazer.
-Por que disse que eu estava morto?
-Minha mãe me disse isso, desde que sou pequena.
-A Cristina disse isso?
-Sim, disse que você morreu em um acidente de carro, que morava em outra cidade e teve um acidente.
-Entendo.
-Disse que o enterro já teria acontecido quando ela soube da suposta notícia, e que foi melhor.
-Disse que foi melhor?
-Sim.
-Melhor de que forma?
-Acho que melhor pra mim.
-Por que acha isso?
-Por tudo que ela falava de você.
-O que ela falava?
-Que você não era um homem bom, foi melhor ter partido.
-Entendo – estava visivelmente triste.
-O seu nome é mesmo Pedro?
-Sim – sorriu um sorriso mal disfarçado – ao menos nisso ela foi sincera com você.
-É.
-Você disse que ela falava.
-Disse, por quê?
-Está no passado.
-Creio que sim
-Não fala mais?
-Não.
-Por quê?
-Não dá.
-Não dá?
-Morreu – outra lágrima escorreu dos seus olhos já inchados.
-Morreu? – espantou-se – Quando?
-Ontem. – as lágrimas fluíam sem nenhum impedimento.
-Meu Deus! O que aconteceu?
-Ataque cardíaco. Não quero falar sobre isso.
-Sinto muito, sinto muito mesmo.  – não sabia o que falar
-Veja como as coisas são, como a vida é ingrata. Até ontem eu tinha mãe e não tinha pai. Hoje eu tenho pai e não tenho mais mãe.
 -Alicia, eu não sei o que te dizer.
-Não diga nada, não tem esse direito.
-Como? – espantou-se.
-Não pode simplesmente aparecer em minha vida repentinamente e querer opinar sobre nada. Principalmente dizer que sente muito. Pro inferno com tanto sentimentalismo. Onde estava quando precisei de você? Onde estava quando ainda dava pra se fazer alguma coisa?
-Alicia, não pense dessa forma.
-Onde estava em toda a minha infância? – interrompeu-o ignorando seu comentário – Não tem o direito de me abandonar aos sete, me deixar crescer sem pai, morrer aos doze e ressurgir aos 21. Vá pro inferno com seu sentimento! – Disse enquanto chorava.
-Por favor, não me veja dessa forma. Não acredite nesse mostro que criou em sua cabeça. Nunca fui um bom marido pra sua mãe, fui fraco e a traí. Machuquei você enquanto estava bêbado. Achei melhor viver sozinho, e fui obrigado a não entrar em contato com você. Nunca fui perfeito, mas nunca, nunca deixei de te amar.
-Não consigo acreditar em suas palavras.
-Se acalme, me dê mais uma chance.
A moça sentou-se novamente e Pedro considerou isso como um sim. Passou a mão em suas bochechas, secando as lágrimas que ali se depositaram.
-Sei que você está passando por um momento difícil, mas veja, não estou aqui para tornar nada mais difícil do que realmente é para você. Quero te ajudar. Recuperar o tempo que perdi contigo. Há algo que eu possa fazer?
-Não tenho nada em mente. – na verdade, por dentro, suplicava por ajuda.
-Cuidar do seu filho, talvez.
-Não tenho filho.
-Fiquei sabendo que teve a uns anos atrás.
-Já partiu.
-Partiu, para onde?
-Para um lugar melhor – Sua boca tremia e sua voz falhava. Seus olhos? Encharcados novamente. – Nasceu com deficiência. Não agüentou.
-Meu Deus!
-Deus? Que Deus? – soava em tom de ironia.
-Eu realmente sinto muito – As lágrimas também o pegaram, como uma doença contagiosa. Segurou as mãos de Alicia e disse – Me perdoe, por tudo. Eu sinto muito.
Alicia só conseguia chorar.
-Não havia tratamento médico para ele?
-Havia.
-Não funcionou?
-Não havia dinheiro.
-Mas você não trabalha?
-Trabalho.
-Não foi suficiente?
-Não, era muito caro.
-Mas em que você trabalha?
-Trabalho com pessoas. –olhou-o nos olhos, tentando o censurar de qualquer pergunta futura.
-É advogada ou psicóloga?
Não funcionou
-Não.
-Então o que faz com as pessoas?
-Sexo. – Abaixou a cabeça, chorando. Chorava por tudo. Por sua mãe, seu filho, sua vida. Aquela piada que recebera o apelido de vida.
-Ah! – a expressão do senhor era de surpresa, dor, tristeza, dó e compaixão. Não conseguia dizer mais nada.
Por um tempo permaneceram em silêncio.
-O que é agora? Acha ruim ter uma filha puta que você abandonou quando criança?
-Não diga isso!
-Por que não? Tem medo dessa palavra? Sou puta sim, graças a você também!
-Não diga tantas besteiras, não se refira a você dessa forma minha princesa. – dizia enquanto passa as mãos em suas bochechas.
-Princesa? –riu ironicamente – Ah sim! Uma princesa, vivendo no luxo de uma mansão, com uma vida feliz, ao invés de uma vagabunda abandonada fazendo sexo por 60 reais. Sim, uma princesa!
O velho chorava com cada palavra da filha, não pelo que ela era, mas pela forma amarga que ela enxergava a vida. Chorava por saber que ele era o grande responsável por aquilo tudo.
-Não diga mais nada minha princesa – dizia entre lagrimas e soluços – mais nada. – levantou-se e a abraçou.
Durante o abraço ambos tiveram suas almas sangrando, derramando seu sangue pelos olhos. Ambos transmitiram ali sentimentos de dores, guardados a muito tempo no interior de suas almas. Fizeram de um simples café um rio de lágrimas.
-Me deixe seu telefone, endereço. Algo que eu possa me comunicar com você. – disse o velho – Não quero mais perder-te.
E assim o fez, e a moça partiu. Partiu novamente para o campo de batalha, mesmo sabendo que seu corpo não agüentaria por muito tempo.

Após duas semanas, uma ligação. O velho senhor da estação de trem, seu pai, havia ido morar com Deus, após ser consumido pelo câncer. Um velho rico, que reconstruiu sua vida em uma cidade grande após o divórcio com sua esposa. Um velho estranho que deixou toda a sua herança para sua filha perdida. Um velho pai que tentou concertar os erros do passado, deixando juntamente com a herança um bilhete com os principais dizeres: “Minha princesa, reconstrua sua vida. Perdoe-me pelos meus erros. Nunca desista de ser feliz. Eu te amo, por mais que seja difícil de acreditar é a verdade. Com amor, Seu pai, o velho estúpido da estação de trem.”

Davi Lima

Conto de Fadas

     Então a pequena Ana fechou seu livro de história e deitou-se na cama. Seu pai, Miguel já havia alertado-a para que encerrasse sua leitura e fosse dormir, porém aquela história a prendia. Após um tempo deixou seu sono vencer, afinal seus olhos já estavam fechando sozinhos, e dessa forma fechou seu livro e guardou-o embaixo da sua cama, o que era estranho para uma garotinha que acreditava nos monstros que ali poderiam viver. Após pensar um pouquinho viu que a luz do quarto ainda estava acessa, refletindo as cores rosa claro da tinta nas paredes, e que não apagaria sozinha. Deu uma espiadinha pelo quarto sob seu cobertor, tomou coragem e saiu correndo até o interruptor. Da mesma forma voltou correndo e saltou antes de chegar a sua cama, aterrissando de modo barulhento. Por um momento permaneceu em silêncio, verificando se seu pai havia acordado. Com o abajur ligado, após um tempo de espera acabou adormecendo, dando inicio aos seus sonhos infantis.
    Seus livros eram seu ponto de equilíbrio, seu porto seguro. Para uma garotinha Ana enfrentava muitas dificuldades, fossem elas próprias de sua idade ou não. Seu pai, um homem muito amoroso, estava agindo de modo estranho ultimamente, não somente com ela, mas com tudo em geral. Na escola, as outras meninas não gostavam dela e viviam fazendo brincadeiras de mau gosto. Sua mãe havia sumido. Sequestro e assassinato foram as palavras que ela ouvira um homem com um uniforme engraçado com um carro que tinha luzes brilhantes falar para seu pai na sala de sua casa dias atrás, e apesar de não saber o significado delas já havia as odiado de primeira pela reação do seu pai após ouvir essas duas palavras.
    Certamente ele era muito curiosa a ponto de querer saber qual era o misterioso significado, mas também era receosa e não as perguntava ao seu pai com medo de vê-lo chorar novamente. Assim, dia após dia e noite após noite ela lia suas histórias na esperança que, de alguma forma, sua mãe voltasse e lhe desse um beijo dizendo que seu pai jamais choraria novamente, que suas amigas da escola não fariam mais mal a ela, e que ela jamais sumiria novamente.
    Mas claro, isso nunca aconteceria.
    Durante a madrugada, Miguel, que acordara após um pesadelo, estava deitado em sua cama enquanto as lágrimas corriam por seu rosto. Era difícil dizer o que estava o machucando mais. Se o assassinato de sua esposa ou o temor que sentia por sua filha, uma garota tímida, sendo criada apenas pelo pai. Toda a investigação da polícia em busca do assassino estava consumindo-o mais ainda. A sensação era de uma ferida constantemente aberta quando estava começando a cicatrizar. Levantou-se da cama e foi até o quarto da menina. A luz estava apagada e o abajur aceso. Ao pé da cama um livro titulado “Cinderela” e aos braços de Ana, um urso sendo exprimido por um abraço forte.
    Ali estava, em pé, olhando agora não para sua filha, mas para uma garotinha. Uma garotinha com sonhos, propósitos e fantasias. Uma garotinha com toda sua infância pela frente. Uma garotinha que perdera e mãe e nem ao menos se dava conta totalmente disso. Uma garotinha com seus medos e temores. Sua filha. Sua filha, fantasiando com um conto de fadas, abraçada com um urso, claramente e involuntariamente suplicando por proteção.
    Fogo e Água se misturaram em uma confusão de sentimentos, lágrimas de tristeza e alegria insistiam em jamais deixar seu rosto seco. Por mais que secasse e apagasse o trajeto que elas deixavam, após um tempo novamente ali estavam. A fonte do problema não era o físico. A fonte era a alma, e para a alma não há remédio. Há tempo, apenas tempo. Ajoelhou-se em frente à cama da menina, pegou o livro no colo, abriu-o na página demarcada, onde Cinderela conversava com sua fada madrinha. Fechou o livro, segurou uma das mãozinhas de Ana, e sentado, novamente com lágrimas nos olhos, dormiu.
     Aquele ali foi o inicio de um tempo novo. Um tempo novo selando o passado. Passado que jamais seria apagado, porem, pra sempre lembrado como superação. Um tempo que ensinou. Para Miguel, um professor que teve a missão de mostrar que mesmo as situações mais difíceis podem ser superadas. Para Ana, um professor com a lição de ensinar que os contos de fada não são reais, que a vida é dura e amarga, mas que pessoas e simples momentos podem tornar tudo um pouco mais doce, dizendo que mesmo sem a existência de conto de fadas, é possível ter um final feliz.

 Davi Lima

Na boa, não curti o final do texto, mas é o que tá tendo pra hoje.